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10/12/2011

O Tyhphis Pernambucano

  Autor: Paulo Roberto Cannizzaro, Em História
  

O Typhis foi um periódico brasileiro fundado e editado por Frei Caneca, crítico ferrenho do absolutismo e defensor das ideias liberais, presente no contexto da Confederação do Equador.

O autoritarismo que marcou o processo da outorga da Constituição de 1824 inaugurou uma fase importante da história política do Brasil, onde a centralização se transformou em uma prática severamente questionada. Mesmo contando com alguns princípios de natureza liberal, a Constituição de 1824 também foi marcada por uma série de dispositivos contrários ao seu aparente e propagado liberalismo.

Tomado por essa orientação contraditória de sua carta constitucional, o governo de Dom Pedro I acabou sendo alvo de diversos ataques políticos, bem como de revoltas. Naquele mesmo ano, inspirados pelos levantes de 1817, um grupo de habitantes de Pernambuco iniciou um movimento contra a monarquia. Tal oposição originou-se nas constantes crises da economia regional e nas cargas tributárias impostas pelo governo.

Como se não bastasse sua situação desoladora, os pernambucanos sentiram o peso do autoritarismo real quando D. Pedro I depôs o então governador, Manuel de Carvalho Paes de Andrade, e indicou um substituto para o cargo.

Essa troca do governo seria o último episódio que antecedeu a formação do movimento que ficou conhecido como Confederação do Equador; movimento esse que ganhou tal nome em razão de sua proximidade geográfica com a Linha do Equador.

Foi assim que este periódico, Typhis, esteve ambientado: num momento histórico importante de Pernambuco e do Brasil. Tinha periodicidade semanal, às quintas-feiras, com seu primeiro número tendo sido editado em dezembro de 1823 e finalizando sua edição em 1824, com vinte e nove exemplares.

O periódico foi fortemente usado para fazer crítica política e defender a liberdade constitucional; sempre trazendo, como epígrafe, em todos os números, versos de Os Lusíadas de Luiz Vaz de Camões. Foi uma das trincheiras de luta de Frei Caneca até a liquidação da Confederação. A dissolução da Assembleia tomara Pernambuco de surpresa: D. Pedro I suspendeu as garantias constitucionais na província, punindo-a territorialmente (amputou a comarca do São Francisco, que constituía a margem esquerda do Rio São Francisco hoje incorporada ao território da Bahia).



 
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03/12/2011

Joaquim Nabuco e a República

  Autor: Paulo Roberto Cannizzaro, Em História
  



Uma das passagens mais interessantes da história e da política brasileira é a chegada da República e como Joaquim Nabuco a encarou em relação as suas convicções monárquicas.

Nabuco era um ferrenho monarquista, conciliava essa posição política com sua postura abolicionista. Atribuía à escravidão a responsabilidade por grande parte dos problemas enfrentados pela sociedade brasileira, defendendo, assim, que o trabalho servil fosse suprimido antes de qualquer mudança no âmbito político.

A abolição da escravatura, no entanto, não deveria ser feita de maneira ruptúrica, ou violenta, mas assentada numa consciência nacional dos benefícios que resultaria à sociedade brasileira.

Com a República, em 1889, forçada através de um golpe militar, e a federação, por decreto do novo governo, Nabuco não acreditou exatamente nesta concepção de governo, e, apesar de muito instigado, não aderiu à nova forma republicana.

Preferiu o caminho de participar da fundação de um partido monarquista, formado por líderes do período imperial que se mantiveram fiéis a dinastia destituída.

No ostracismo, ele escreveu parte de sua obra, entre elas Um Estadista do Império e a Minha formação, e só voltou à vida pública quando compreendeu a impossibilidade da restauração da monarquia. Convocado por sua reconhecida inteligência pelo governo republicano, acabou aderindo à República de forma incontestável, mesmo que tenha resistido durante tanto tempo.

O que é lindo nisto tudo é a sua defesa delicada e incisiva à monarquia, sempre bem fundamentada em suas convicções políticas, que ele fez durante toda a sua vida. Uma das passagens mais marcantes é a que deixou registrada no Diário do Commercio, periódico da época, afirmando: Porque continuo a ser monarquista. Ele não se entregou facilmente à sedução da República.



Nabuco acreditava que as monarquias tinham interesse sim em alternar os partidos, em conservar o poder de fiscalização livre no país e, contrariamente, o interesse dos governos republicanos, declaradamente, eram perpetuar-se no poder.

Dizia ele, que a nossa monarquia tropical era singular, porque não tinha conteúdo militar, nem clerical, nem aristocrático e por isso foi derrubada pelo exército.

O grande Darcy Ribeiro disse:

“Eis o nosso grande Joaquim Nabuco, monarquista de ideias e convicções profundas, mesmo após o 15 de novembro, aqui convertido”.

“A sabedoria e o amadurecimento em dez anos de reflexões, levaram-no a considerar a República como a forma inevitável de governo para o Brasil, a vocação histórica e necessária das nações da América”.

(ANDRADE, Manuel Correia. Joaquim Nabuco – A abolição e a República)



 
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28/11/2011

Um caso de amor e amizade: D. Pedro II e Luísa

  Autor: Paulo Roberto Cannizzaro, Em História
  




A história está repleta de histórias de amores nas cortes imperiais. Talvez uma das curiosas tenha sido a do nosso discreto Dom Pedro II, seguramente um dos maiores homens públicos.

No Brasil, com a chegada da Família Real, no século XIX, o país se tornou efervescente. Aportou aqui muita gente, e, com eles, alguns casos de amores... Alguns, absolutamente escandalosos e não foram poucos os que eram abertos para todo mundo ver; outros, mais discretos e escondidos.

Conta-se, por exemplo, que Dom João VI, um homem inteligente e que de fato representa tanto da afirmação do próprio país em nossa história imperial, era talvez mais preocupado em seu paladar e bons pratos do que exatamente na relação com sua complicada esposa. Ele, inclusive, fingia não ouvir as fofocas palacianas sobre o comportamento de Dona Carlota Joaquina e seus amantes, chegando a nomear um deles como Diretor do Banco do Brasil.

Seu filho, o Imperador Dom Pedro I, era, seguramente, o amante declarado das cortes. Sua vida amorosa foi movimentada: homem de muitas amantes, dizem que com vários filhos bastardos, envolvendo-se com qualquer tipo de mulher e chegando a ter um caso com a irmã de uma de suas amantes, imaginem! O galante Imperador não tinha limites.

Já Dom Pedro II, tímido, introspectivo e discreto, tinha comportamento mais recatado. Assumiu o trono muito jovem e ao se casar sentiu-se desapontado. Mostraram-lhe uma pintura de uma linda morena de Nápoles, que em seguida não fez jus a essa descrição. Mesmo assim, foi conduzido a casar-se com Tereza Cristina que era feia e manca, conta a história.

Mas, de alguma forma, ele honrou a sua vida palaciana e foi com ela que esteve quase toda a sua vida, sobretudo por um fato marcante: com a Imperatriz Teresa Cristina, a verdadeira caridade sentou-se no trono brasileiro. Nos 46 anos que esteve no Brasil, Dona Tereza Cristina representou o protótipo de virtudes cristãs, mesmo que sua atuação seja quase invisível na história brasileira, e ressalte-se, injustamente. Coube a ela o título de “a mãe dos brasileiros” e a imagem de uma mulher extremamente virtuosa era consenso unânime. 

Quando Dom Pedro II tinha 31 anos, ele conhece Luísa Margarida, a Condessa de Barral, mulher mais velha do que ele cerca de nove anos e por quem perdidamente se apaixonou. Segundo historiadores, foi o grande amor de sua vida. Ao longo dos anos, mostrou-se que o caso de  Dom Pedro II era mais do que uma simples paixão passageira: converteu-se em confiança, respeito, admiração intelectual e amor, pelo que se pode concluir pelas suas cartas à Condessa. E imaginem: eles mantiveram um romance por 34 anos, a maior parte dele por cartas, que ambos combinaram em destruir. Dom Pedro II cumpriu a promessa e destruiu todas as cartas recebidas de sua Condessa. Luísa, contrariamente, guardou algumas delas e é exatamente através dessas correspondências secretas que boa parte da história está sendo contada, recentemente. Conforme relatos da escritora Del Priori, o casal se encontrava, às escondidas, em Petrópolis, onde Luísa havia alugado um chalé, e no Rio, no Palácio de São Cristóvão, onde morava o Imperador. Diários encontrados referem-se ainda a uma viagem que o Imperador e a Condessa teriam feito juntos à Grécia.

Dom Pedro II encantou-se com a figura de Barral: de beleza rara, educada, elegante, magra, vestia-se bem e seguia a moda francesa. Conta-se que ela mandava e desmandava no Imperador, mas que não o influenciava em suas decisões de governante e monarca. Reconhecidamente, ela muito ajudou Dom Pedro II no seu traquejo social, nas cerimônias do Palácio e em seu comportamento na corte. Como ele era um homem simples, Barral o ensinava a portar-se à mesa, a limpar as unhas e etiqueta para não cometer gafes. A Condessa, atualizado pelo tempo que morou na Europa, partilhava informações sobre arte, livros, teatro e cultura geral.

Aparentemente, o marido de Barral nunca se posicionou sobre seu romance com Dom Pedro II. Como preceptora das filhas do Imperador, a Condessa recebia muitos convites para bailes, mas estava sempre desacompanhada. Quando as princesas casaram, Luísa volta para a Europa, e, assim, começam as trocas de correspondências com o Imperador.

Com a Proclamação da República, a Família Imperial exila-se na França. Dom Pedro II reencontra a Condessa.  O Imperador lhe escrevia poesias e cartas confidentes, colhia flores e deixava na porta de seu quarto. 

Luísa vem a falecer de pneumonia cerca de dois anos depois, e ele, logo em seguida, com complicações de sua diabetes.



 
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