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01/11/2013

Cenas do uso de um telefone: D. Pedro II, Graham Bell e a atualidade

  Autor: Paulo Roberto Cannizzaro, Em História
  


D. Pedro II e Alexander Graham Bell


CENA 1:

O grande monarca D.Pedro II, principalmente nas viagens ao exterior quando procurava estabelecer relações com pessoas ilustres, teria ficado literalmente encantando com a invenção do telefone. Conta a nossa história que Graham Bell encontrou-se com D.Pedro II numa feira de inventos na Filadélfia (Exposição Universal de 1876), que comemorava os 100 anos da Declaração da Independência. Eles teriam se encontrado por acaso, mesmo considerando que já se conheciam.

A cena da conversa entre estes dois é hoje parte de um dos grandes momentos da ciência, em primeiro plano porque foi o primeiro Monarca a visitar os Estados Unidos, e ademais exatamente pela cena do encontro com Graham Bell, na época com 29 anos.

Graham Bell teria pedido então ao nosso monarca, que ele se postasse a uma distância de cerca de cem metros e mantivesse junto aos seus ouvidos uma pequena caixa metálica conectada a um fio de cobre. Por fim ele atravessou a galeria e no extremo oposto da fiação, pronunciou as seguintes palavras, retiradas da peça de Hamlet, de Shakespeare: "To be or not to be (Ser ou não ser)".  Surpreso, D.Pedro II teria exclamado: "Meus deus, isto fala! Eu escuto! Eu escuto".

E assim, rebatizado de telefone, o novo aparato mudou a realidade humana. Dom Pedro II foi um entusiasta do telefone. No mesmo ano em que Graham Bell recebeu a patente da invenção (1876), nos Estados Unidos, um aparelho telefônico foi instalado no Palácio São Cristóvão, no Rio de Janeiro.

 


CENA 2:  

Agora simplesmente observe uma sala de embarque de aeroporto.

Com algum tempo para observar, perceba atentamente o comportamento das pessoas. Detenha-se pouco do seu precioso tempo para verificar cada olhar, cada pessoa, seus semblantes, suas mãos e, principalmente, o que cada um está fazendo nestes momentos de esperas.

Você vai interpretar a seguinte cena: As pessoas estarão na maioria de cabeça baixa, completamente absorvidas em seus mundos, com fones de ouvidos em algumas vezes, notebooks, tablets, celulares sendo vistos com olhares fixos, sons de bips nervosos avisando da chegada de novas mensagens, sonoridades e barulhos de chamadas que vão desde o som de um louco carro de polícia estridente até uma música de gosto duvidoso, jogos neuróticos de repetição, dedos deslizando compulsivamente pelas telas; um silêncio absorvido, e os olhares totalmente voltados para telas cheias de recursos. Os celulares parecem, de forma comum, ser o outro mundo de cada um.

Muitas vezes tantos casais estão sentados ao lado ou de frente sequer conversam, quase não se ouve um diálogo, afinal todos estão ocupados. O celular na mão transformou-se na principal aliança e companhia. Tudo totalmente conectado, como se todos estivessem conversando com todos,em um mundo de divisas invisíveis.

Teclados, palavras abreviadas, sinais monossilábicos, tudo apressado com mãos que precisam ser ágeis para deslizar por celulares sofisticados.

Assim, aquela simples invenção, que surpreendeu o nosso monarca D.Pedro II, algumas décadas depois invadiu totalmente nossas mentes e mãos. Agora, diariamente impregnadas dessas “utilidades” diárias, refém dos silêncios tecnológicos. Interessante pensar que hoje os telefones oferecem não somente a possibilidade de "falar".

Estou aqui, agora, exatamente numa sala de aeroporto. Não conversei com ninguém. Tem um monte de gente aqui do mesmo jeito, sequer olharam para mim, sem perceber que estou observando-os.

“Now Boarding”. Preciso me desconectar, mas não se preocupem, daqui a uma hora já estarei novamente ligado, neurótica e compulsivamente. Quando ligar meu celular vou ver o mesmo monte de chamadas e mensagens estressadas.



Estatísticas de Celulares no Brasil:

Total de Celulares Ago/13: 268,4 milhões

268,4 milhões de celulares em Ago/13

Dados preliminares da Anatel indicam que o Brasil terminou Ago/13 com 268,4 milhões de celulares e 135,45 cel/100 hab.

 

As adições líquidas de 1.441 mil celulares em Ago/13 foram as maiores do ano e muito próximas das de Ago/13 (1.490 mil).

 

O pré-pago apresentou adições líquidas de 681 mil e o pós-pago de 759 mil.

 

A participação do pré-pago caiu para 79,06%.

 

 

 
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25/09/2013

Flores: Samba, Princesa Isabel e a História do Brasil.

  Autor: Paulo Roberto Cannizzaro, Em História
  
Afinal, como todas essas coisas estão ligadas?

Acabei de casar minha filha, Ana Clara. Durante os preparativos acompanhei cada passo de preparação das etapas do casamento e ouvindo conversas de buquês, flores, arranjos na Igreja, refleti em alguns desses momentos: “de onde vem essas ligações que as flores podiam ter com o casamento, com a música e até com a história do Brasil?”.

Vejam algumas curiosidades:


  • A Camélia foi na verdade a flor da nossa liberdade.

Ela foi um dos grandes símbolos da Abolição da Escravatura do Brasil. Na década de 1880, no Quilombo do Leblon, escravos fugidos e bem articulados cultivavam delicadas camélias.

A Princesa Isabel recebia periodicamente as mais belas Camélias e chegou a usá-las publicamente em seus trajes, adornando sempre suas roupas, fato sempre notado pelos jornais. As flores viraram símbolo da causa. Quem colocava uma Camélia na lapela ou cultivava no jardim de casa, confessava ser um abolicionista.

A flor servia como uma espécie de código de identificação entre os abolicionistas, principalmente quando empenhados em ações mais perigosas. Um escravo podia identificar imediatamente possíveis aliados pelo uso de uma dessas flores no peito, do lado do coração.


A Princesa Isabel recebe um buquê de camélias em nome dos escravos fugidos do Quilombo Seixas.

 

  • O compositor Cartola e o Samba.

O próprio jardim da casa de Cartola teria o inspirado com as rosas. Conta-se que Dona Zica, sua mulher, impressionava-se diariamente com uma roseira que se multiplicava na casa deles na Mangueira. Ela teria perguntado a ele: “Por que estão nascendo tantas rosas”? E ele teria respondido. “Não sei, Zica. As rosas não falam”.

(Trecho da música "As rosas não falam" - “Queixo-me às rosas/Mas que bobagem/As rosas não falam/Simplesmente as rosas exalam/O perfume que roubam de ti”.



Cartola e Dona Zica em frente a sua casa na Mangueira, com a famosa roseira.

  

  • A tradição do uso de ramalhete nos casamentos.

Aponta-se que vem da velha Grécia o costume das noivas casarem com ramalhetes. As romanas seguravam vários tipos de ervas que eram aromáticas nas cerimônias de casamento com a ideia de espantar más energias.  Na França do século 14, o buquê ficou mais caprichado, com flores sofisticadas para simbolizar a fertilidade.

No período da Idade Média as noivas faziam o trajeto a pé para a igreja, no qual recebiam flores, ervas e temperos para lhe trazerem sorte e felicidade, formando assim, no final do trajeto, um buquê. Foi na Europa que os arranjos tornaram-se mais sofisticados, com flores exóticas.

Na época Vitoriana, século XIX, era impróprio declarar abertamente seus sentimentos, criou-se então a “Linguagem das Flores” para demonstrar suas intenções sem falar uma palavra sequer. Os buquês passaram a ser escolhidos pelo significado das flores. 

Na antiga Polônia, acreditava-se que, colocando açúcar no buquê da noiva, seu temperamento se manteria "doce" ao longo do casamento.

Antigamente, as noivas confeccionavam dois arranjos. Um era abençoado por um sacerdote e preservado numa redoma de vidro que era exposto na sala de casa ou no quarto. O outro era arremessado para as mulheres solteiras da festa, sendo dessa maneira a próxima a se casar, ritual que é realizado até hoje nas cerimônias.

 

  • Celestiais.

 A flor de Maracujá, nativa do Brasil, é considerada a flor da Paixão de Cristo. Rosas são ligadas a Santa Terezinha. Lírios, a São José.


 

Santa Teresa do Menino Jesus. Muito nova, já atingida pela tuberculose, não rejeitava trabalho algum e continuava a “jogar para Jesus flores de pequenos sacrifícios”. Na iminência de sua morte, disse às religiosas que estavam à sua volta: "Farei cair uma chuva de rosas sobre o mundo!"


  • O uso de flores nos velórios.

A ideia de homenagear os mortos com coroas floridas no ritual funerário é muito mais antiga do que se imagina. Em Israel, arqueólogos encontraram esqueletos enterrados com flores havia 13 mil anos.

 
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14/09/2013

A Primeira Constituição Brasileira de 1824

  Autor: Paulo Roberto Cannizzaro, Em História
  

D. Pedro I, por Henrique José da Silva.

A Constituição do Império do Brasil  de 1824 foi a nossa primeira constituição brasileira. Essa carta constitucional foi encomendada pelo imperador Dom Pedro I (até então, Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves), proclamador da independência do Brasil (1822) do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e fundador do Império Brasileiro.

A elaboração desta constituição foi extremamente conturbada. Na verdade, esse é um capítulo a parte na história do Brasil, cheia de grandes dramas e dilemas. Os constituintes, muitos deles padres, queriam declaradamente delimitar os poderes do Imperador. D.Pedro I, contrariamente, desejava ter um grande poder sobre o legislativo, mesmo que não tivesse qualquer propósito declarado de ser um déspota.

Resultado: D. Pedro I mandou o exército invadir o plenário em 12 de novembro de 1823, prendendo e exilando diversos deputados. Este episódio ficou conhecido como "noite da agonia". E assim, entre portas fechadas, com pessoas de confiança do Imperador, do partido português, passamos a ser regidos por uma Carta Magna da Monarquia. Ao longo dos anos, converteu-se na Constituição que teve o maior círculo de vida, uma carta constitucional que teve longa vida e que só foi superada com a queda da Monarquia e a chegada da República.

Principais características da Constituição de 1824:

  •           O governo era uma monarquia unitária e hereditária; 
  •     Determinava a constituição e existência de quatro poderes distintos: o Legislativo, o Executivo, o Judiciário e o Poder Moderador, este acima dos demais poderes, exercido pelo Imperador;
  •      O Estado adotava o Catolicismo como religião oficial. As outras religiões eram permitidas com seus cultos domésticos, sendo proibida a construção de templos com aspecto exterior diferenciado;
  •             Definia quem é considerado cidadão brasileiro;
  •           As eleições eram censitárias e indiretas;
  •       Submissão da Igreja ao Estado, inclusive com o direito do Imperador de conceder cargos eclesiásticos na Igreja Católica (padroado);
  •          Foi uma das primeiras do mundo a incluir em seu texto (artigo 179) um rol de direitos e garantias individuais;
  •          O Imperador era inimputável (não respondia judicialmente por seus atos).
  • · Por meio do Poder Moderador o imperador nomeava os membros vitalícios do Conselho de Estado os presidentes de província, as autoridades eclesiásticas da Igreja oficial católica apostólica romana, o Senado vitalício. Também nomeava e suspendia os magistrados do Poder Judiciário, assim como nomeava e destituía os ministros do Poder Executivo.

A Carta outorgada em 1824 foi influenciada pelas Constituições francesa de 1791 e espanhola de 1812 Era, na verdade, na expressão dominante da época, um "belo documento de liberalismo do tipo francês”.

O curioso é que o homem que proclamou a nossa Independência, tantas vezes tachado de mulherengo, devasso, boêmio, namorador e amigo de pessoas tidas como vagabundos, foi ao mesmo tempo um liberal, audacioso e, principalmente, responsável direto por proclamar uma das Constituições mais moderna do mundo, naquela época.

A historiadora Isabel Lustosa, biógrafa do Imperador, afirma que D. Pedro I  foi uma espécie de primeiro Macunaíma brasileiro, o herói sem caráter criado por Mario de Andrade. De fato, uma figura difícil de definição, algumas vezes herói, outras vilão. D Pedro I foi, na verdade, tão somente D.Pedro I.

Agora, veja o trecho curioso de nossa constituição que trata o Poder Moderador: (grafia original), e com algumas palavras marcadas em negrito, que merecem relevos, principalmente o artigo 99.


CONSTITUICÃO POLITICA DO IMPERIO DO BRAZIL (DE 25 DE MARÇO DE 1824)

 EM NOME DA SANTISSIMA TRINDADE.

TITULO 5º

Do Imperador.

CAPITULO I.

Do Poder Moderador.

       

Art. 98. O Poder Moderador é a chave de toda a organisação Politica, e é delegado privativamente ao Imperador, como Chefe Supremo da Nação, e seu Primeiro Representante, para que incessantemente vele sobre a manutenção da Independencia, equilibrio, e harmonia dos mais Poderes Politicos.

        

Art. 99. A Pessoa do Imperador é inviolavel, e Sagrada: Elle não está sujeito a responsabilidade alguma.

        

Art. 100. Os seus Titulos são "Imperador Constitucional, e Defensor Perpetuo do Brazil" e tem o Tratamento de Magestade Imperial.


Art. 101. O Imperador exerce o Poder Moderador.

 
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10/09/2013

Mulheres dos filmes “noir” e os dramas psicológicos

  Autor: Paulo Roberto Cannizzaro, Em História, Cinema
  


Já comentamos aqui no blog sobre o cinema "noir".

De um modo geral, as mulheres que ambientaram os filmes “Noir” desempenhavam nos enredos personagens que sempre foram muito marcantes. Assim, apesar de serem protagonistas destes “filmes negros”, faziam habitualmente par com uma figura masculina que normalmente era um sujeito misterioso, podiam estar ligadas a um criminoso ou a um homem psicologicamente complicado.

O certo é que sem a presença de um homem para povoar os enredos não existiria o tipo femme fatale dos “filmes negros” que tanto marcaram a história do cinema. Todas essas mulheres representavam personagens importantes na trama dos grandes filmes “Noir”, com a grande maioria delas sendo vítimas de histórias de sofrimentos.

Em “Alma em Suplicio” (1945), “Os Maus não Choram” (1952) e “Medo Súbito” (1952) a grande atriz Joan Crawford atuava como uma mulher que vivia suportando infelicidades e permanentes traições, mas suas personagens eram criadas exatamente para demonstrar tais dores nas histórias. Alma em Suplicio” (Mildred Pierce) foi recentemente adaptado pela HBO em uma série, com a talentosa Kate Winslet no papel principal.

 

Joan Crawford em Alma em Suplicio” (Mildred Pierce), um filme que é considerado superior ao livro que lhe deu origem. A história é emoldurada pelo questionamento de Mildred pela polícia, depois que eles descobrem o corpo de seu segundo marido, Monte Beragon.


Em “Gardênia Azul” (1953), de Fritz Lang, e em “Acusada” (1949), naqueles enredos, as mulheres se defendem ferindo mortalmente um incrível predador sexual. No filme “À Meia Luz” (1944),  Ingrid Bergman, e ainda no filme “Águas Tenebrosas” (1946), Leslie Calvin, desempenham personagens que eram mentalmente perturbadas e vítimas de ataques psicológicos.



Ingrid Bergman em "À Meia Luz"(Gaslight) de 1944. A bela e ingênua Paula Alquist (Ingrid Bergman) conhece o vivido Gregory Anton (Charles Boyer) e, após um curto namoro, se casam eles. O casal se muda para a casa de uma tia de Paula, que foi morta misteriosamente.


No filme “Angústia”, talvez tenha a demonstração mais significativa de uma personagem central que é literalmente drogada, raptada e forçada a assumir outra identidade. No surpreendente filme “Nenhum Homem era Dela”, temos um enredo totalmente inverso, no qual uma mulher absolutamente indigente assume o papel de fingir ser uma mulher rica.

Ao nível filosófico, os anos 1930 e princípios dos anos 1940, vimos tanto o existencialismo e a psicologia freudiana invadir a literatura americana, os principais jornais e revistas da época. Todas estas tendências ajudaram a promover uma visão geral em que a ênfase do absurdo da existência, juntamente com a importância do passado individual, foi determinante. Isto representou uma audiência muito receptiva, num momento histórico bastante desanimador e destruído, pelos efeitos de uma depressão econômica que era recente e depois por uma guerra mundial.

Os dois temas mais importantes do movimento “Noir” sempre foram histórias de passados sombrios e o pesadelo fatalista, sempre com mulheres pintando histórias sombrias.     

 
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