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04/01/2013

"Mulheres de Ditadores" e o mistério da sedução

  Autor: Paulo Roberto Cannizzaro, Em História, Literatura, Cinema
  


Hitler sempre provocava suspiro em suas admiradoras, Eva Braun chegou a incorporar em seu uso pessoal até mesmo o estilo das vestimentas de Hitler e Rachele Mussolini foi modelo de boa esposa e mãe da propaganda fascista na Itália.

O livro em referência demonstra em boa narrativa que, por trás de tantos tiranos que povoaram a história das nações, alguns deles verdadeiros loucos ou homens cruéis, inacreditavelmente existiu invariavelmente uma grande quantidade de mulheres embevecidas e apaixonadas, mandando cartas de amor e de admiração para esses homens.

Hitler, um dos recordistas de paixões, colecionou durante sua vida um número absurdo de cartas de admiradoras; Mussolini recebia bombons e Fidel Castro protagonizou também conquistas de uma revolução sensual. É inconcebível acreditar, por exemplo, que um Adolf Hitler recebesse mais cartas do que índoles do entretenimento, como os Beatles e Mick Jagger juntos.

Ele necessariamente não lia tais correspondências pessoalmente, mas dava valor a todas elas, acompanhava as notícias das apaixonadas dispondo de uma estrutura administrativa para lê-las, respondendo mesmo que com certa distância a cada uma das suas “encantadas”. O Führer tinha convencimento, como tantos outros ditadores, de que o poder repousava fundamentalmente em sua capacidade de sedução, e as mulheres eram um bom indicativo. Chegou-se ao ponto de mandar classificar as frenéticas correspondências no Arquivo A, sob a etiqueta  “Rabiscadas por mulheres”, tudo sob o controle de altos funcionários de confiança do Reich. Rudolf Hess foi um deles.Estas cartas são expressões de desmesurados delírios, do tipo de quem escreve, cega e apaixonadamente. Meu Führer querido, penso em você todos os dias, todas as horas, todos os minutos” e que fascínio ele induzia nestas mulheres, não menos loucas.

Na Itália, Benito Mussolini foi também adorado. Chegavam-lhe de 30 a 40 mil cartas por mês. Uma fascista mais decidida, M. Ilenia, diz a ele numa destas cartas: “Eu não tive nem coragem nem tempo para me jogar sob as rodas de seu carro, nesta manhã, na Piazza Venezia”.

Em Mulheres de Ditadores” abrem-se as portas dos amores de 14 destes homens tiranos e, ao mesmo tempo, relatando as provas heróicas, patéticas, ternas ou atrozes dedicadas por mulheres que idolatravam seus heróis, amaram inclusive o lado grotesco disto tudo, ou o que podia parecer sublime desses “senhores do mundo”.


O primeiro volume é consagrado às mulheres de Vladimir Lênin (Rússia), Joseph Stálin (Rússia), António Salazar (Portugal), Jean-Bédel Bokassa (República Centro-Africana), Mao Tsé-tung (China), Nicolae Ceausescu (Romênia), Slobodan Milosevic(ex-Iugoslávia), Mussolini (Itália) e Hitler (Alemanha). O segundo, que acaba de ser publicado, examina tiranos mais recentes: Fidel Castro (Cuba), Saddam Hussein (Iraque), Khomeini (Irã), Kim Jong-il (Coreia do Norte) e Bin Laden.

Kim Jong-il morreu recentemente, em 2011. Reinou com mão de ferro, às vezes com muito sangue, na Coreia do Norte, numa ditadura comunista assustadora, miserável, fechada e que, há mais de meio século, viveu fora do mundo integrado. Ele baixinho, sem brilho, vagamente obeso, penteado de maneira absurda e ridícula, comportou-se como se o poder não tivesse limitesCriou “grupos de prazer” que contavam com cerca de duas mil garotas recrutadas na saída de colégios e que deviam obedecer a certos critérios: ter 18 anos, ser virgens e sem doenças, a fim de promoverem festas secretas.

Enfim, as testemunhas são unânimes sobre a capacidade de sedução destes homens e não se pode duvidar delas. Pareciam homens piedosos e virtuosos, de uma moralidade escrupulosa. Todos relatam de suas “delicadezas”. É como se tudo isto atingisse um assustador paradoxo do fanatismo, capaz de externá-los como se fossem grandes sedutores.

Para quem deseja ter uma noção da maior intimidade sobre a vida de Hitler, principalmente em relação ao seu magnetismo pessoal, ou para conhecer mais sobre sua convivência nos bastidores do poder, vale a pena também assistir ao documentário sobre Traudl Junge, a secretária particular de Adolf Hitler. Ela revela, entre tantos relatos, detalhes sobre suas características pessoais. Descreve-o como atencioso e gentil, mesmo que louco. 


"Im Toten Winkel" (Eu Fui Secretaria de Hitler), 2002.

 
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29/12/2012

"O Refúgio Secreto" e a incrível história de Corrie Ten Boom

  Autor: Paulo Roberto Cannizzaro, Em Literatura, Cinema
  



Fotografia de Corrie Ten Boom

Cornelia Johana Arnolda Tem Boom, conhecida como Corrie Ten Boom (1892-1983) foi uma escritora e resistente holandesa que ajudou a salvar a vida de muitos judeus, ao escondê-los dos nazistas durante a II Guerra Mundial, na sua própria casa e relojoaria do pai. Ela registrou a sua autobiografia no livro “O Refúgio Secreto”, posteriormente adaptado para o cinema em um filme com o mesmo nome.



Fotografia da família Boom


Em dezembro de 1967 Corrie foi honrada com a inclusão de seu nome nos “Justos entre as Nações”, pelo Estado de Israel. 

O filme narra a história de sua família, pai e irmãos, que lutaram contra o terror nazista com a única arma que eles dispunham em mãos: a educação cristã que receberam ao longo de suas vidas de generosidade e amor.

Se você já se emocionou um dia assistindo a história do filme que retrata a vida da garota Anne Frank e sua família, também abrigando amigos em sua casa em Amsterdã, deve assistir ao filme “O Refúgio Secreto”. Ele mostra a luta e abnegação dessa família Boom, de origem holandesa cristã, numa cidade pequena, organizando e liderando uma verdadeira unidade de proteção aos judeus, mesmo assumindo todos os riscos de suas próprias vidas ao serem descobertos.



Capa do livro "O Refúgio Secreto", que deu origem ao filme de mesmo nome.

Casper Ten Boom acreditava que os judeus eram de fato o "povo escolhido" e disse a todos que em sua casa "o povo de Deus era sempre bem-vindo". Assim começou "o refúgio secreto", quando Ten Boom e sua irmã começaram a receber refugiados, alguns dos quais eram judeus, outros, membros da resistência procurados pela Gestapo sua contrapartida holandesa.




Uma das paredes falsas na casa da família Boom


Presa em seguida, com toda a família, Corrie experimentou toda a intensidade das brutalidades de um campo de concentração, presa em Ravensbruck, lugar somente para mulheres. Lá ela conviveu com cenas de horror do Holocausto, inclusive testemunhando a morte de sua vinculada irmã Betsie.

Saindo do campo de concentração às vésperas do final do ano de 1944, cumprindo-se a visão do sonho de sua irmã, e segundo ela, libertada apenas por um erro administrativo do campo de Ravensbruck, inicia com sua libertação uma verdadeira cruzada em propagar ao mundo, em mais de 60 países que visitou e em várias entrevistas e programas de televisão, todo o horror e desumanidade do nazismo.

Ela aparece no final do filme, já com 80 anos, com a aparência de uma senhora forte e cheia de fé, afirmando a promessa que prometera a irmã Betsie, de sempre propagar ao longo de sua vida a sua fé.

“Nenhum poço é tão profundo que Ele não possa alcançar. Com Jesus, mesmo nos momentos mais difíceis e sombrios, o bem permanece e o bem maior há de vir.”

 
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22/10/2012

Gandhi, um grande filme para homenagear um grande homem

  Autor: Paulo Roberto Cannizzaro, Em História, Literatura, Cinema
  


"Deus é verdade", Gandhi.


Mais um daqueles filmes imperdíveis. O ator Ben Kingsley está magnífico no papel de Gandhi. Com uma direção irretocável de Richard Attenborough, o filme de 1982 impressiona pela grandiosidade, mostrando a peregrinação desse fascinante líder em busca da pacificação e independência de um povo.


Cena do filme "Gandhi", com Kingsley na melhor atuação de sua carreira.


O filme começa com o assassinato do grande líder e sequencialmente com o seu cortejo fúnebre. Em flashback, volta-se ao passado, para o tempo em que o jovem advogado Gandhi encontrava-se na África do Sul, período esse em que teve contato pela primeira vez com um regime dolorido de extrema discriminação racial: o Apartheid.

Acredita-se que o episódio em que fora expulso de um trem, com ele ainda trabalhando como advogado, por se recusar a deixar a primeira classe, tenha sido o evento que despertou sua consciência social, sua visão humanista e universal.



Gandhi na frente de seu escritório, na África do Sul


A partir de então, começam as inúmeras manobras de desafio às autoridades britânicas em nome dos direitos civis da minoria hindu na África do Sul, contestando o sistema social baseado na desigualdade e se apropriando da desobediência como instrumento para tanto.

Quando Gandhi tombou, por obra de três balas de um fanático assassino, muito da consciência da humanidade ficou sem porta-voz, como disse o general George Marshall, então secretário de Estado dos Estados Unidos. A humanidade empobreceu. Em sua terra e no estrangeiro, com as armas da doçura, da franqueza, da honestidade, da humildade, da não-violência, ele construiu uma história, uma narrativa de êxito desusado, com meios também inusitados.

Um dos termos mais usado para defini-lo foi “satyagraha”, termo sânscrito para “firmeza na verdade”.

Em 31 de janeiro de 1948, às margens das águas sagradas do Jumna, perto de Nova Deli, quase meio milhão de pessoas esperou, ao sol, que a procissão fúnebre chegasse ao sítio da cremação. Naquele dia predominava o branco— o branco dos sáris de algodão, das mulheres, bem como das vestimentas, dos capuzes e dos turbantes dos homens. 



Procissão fúnebre de Gandhi, em 1948.


Quando morreu, Gandhi era o que sempre fora: um cidadão comum, sem riqueza, sem bens de raiz, sem títulos, sem posição oficial, sem distinção acadêmica e sem realizações científicas.

Não obstante, os chefes de todos os governos, exceto os do governo soviético, e os líderes de todas as religiões, prestaram-lhe homenagens. O presidente Truman, o rei da Inglaterra, o presidente da França, o arcebispo de Canterbury, o papa Pio XII, o rabino-chefe de Londres, o dalai-lama do Tibete e mais de três mil outras personalidades estrangeiras enviaram mensagens de condolências, não solicitadas, à Índia. O Conselho de Segurança das Nações Unidas interrompeu as suas deliberações para render tributo a Gandhi e enaltecer a sua devoção à paz, bem como as suas qualidades espirituais. 

Philip Noel-Baker, delegado britânico, louvou Gandhi como tendo sido o amigo dos mais pobres, dos mais abandonados e dos perdidos” e colocou que as grandes realizações de Gandhi ainda estavam por vir.

Gandhi tornou a humildade e a verdade mais poderosas do que impérios”, disse o senador norte-americano Arthur H.Vandenberg.

Não conheço outro homem, de qualquer época, e, com efeito, nem na história recente que haja demonstrado, tão poderosa e convincentemente, o poder do espírito sobre as coisas materiaisdeclarou Sir Stafford Cripps, estadista britânico.

Eu nunca vi Gandhi, não conheço seu idioma. Nunca pus os pés em sua terra. E, contudo, sinto o mesmo pesar, como se eu houvesse perdido alguém próximo e caro. O mundo inteiro foi lançado à tristeza, devido à morte desse homem extraordinárioescreveu Léon Blum, antigo primeiro-ministro francês.



Sugestão de leitura


Outra sugestão ainda: se quiser conhecer melhor ainda a vida deste líder leia o livro mais recente da Companhia das Letras, “Mahatma Gandhi e sua luta com a Índia”, de Joseph Lelyveld. Esse autor nos conta passagens bem curiosas da vida dele, nos fazendo seguramente conhecer mais um pouco sobre a riqueza de sentimentos de uma das maiores figuras da humanidade. 

 
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