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26/01/2015

"Em Segredo", versão no cinema do romance "Thérèse Raquin"

  Autor: Paulo Roberto Cannizzaro, Em Literatura, Cinema
  


Poster do filme "Em Segredo", adaptação do romance de Émile Zola

É um filme baseado no aclamado romance “Thérèse Raquin (1867), romance do escritor francês Émile Zola, considerada a obra inaugural do naturalismo literário. Ao ser publicada, foi severamente repudiada pela crítica literária especializada.

Entretanto, o escândalo provocado por “Thérèse Raquin” entre os críticos trouxe um resultado que acabou sendo inesperado: serviu de propaganda aos ideais naturalistas do romance, colocando a recém-nascida escola literária em voga.

Sob esse pretexto, a obra obteve uma nova edição no ano seguinte, acompanhada por um prefácio, no qual Zola defende as máximas do naturalismo literário pela necessidade de realizar uma análise científica minuciosa da alma humana, sem idealizações morais. Dessa maneira, nas palavras do próprio Zola, cada capítulo constitui o estudo de um caso curioso de fisiologia.

O filme, além de tudo, tem o trabalho monumental de Jessica Lange, incorporando com excelente atuação o papel de Madame Raquin.

A história centra-se basicamente num caso de adultério que envolve três personagens, Camille, Thérèse e Laurent.  Na cidade de Paris do século XIX, a jovem Thérèse Raquin é forçada pela tia a se casar com o primo Camille, um homem indiferente que não mostra o menor interesse nela. Thérèse passa a viver uma vida monótona, até conhecer um amigo do marido, Laurent, e ter um caso com ele. Mas a paixão entre os dois jamais poderia ser assumida publicamente, a não ser que Camille não existisse mais. Assim, os dois apaixonados planejam o crime perfeito.

O clima de morte permeia toda narrativa.

“Thérèse Raquin”, de Émile Zola, é uma obra mais do que obrigatória. A dica de leitura vale também para aqueles que gostam de um bom clássico da literatura francesa. 

 
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27/09/2013

A vida de Jane Austen e o encanto eterno de suas obras

  Autor: Ana Clara Cannizzaro, Em Literatura, Cinema
  
Por Ana Clara Cannizzaro


Jane Austen. Pintura a óleo por um ator deconhecido, em 1875. 



O único retrato oficial feito da autora é esta aquarela inacabada de sua irmã Cassandra, em 1810. 

Ao começar a escrever este artigo, tentei me lembrar quando foi que me apaixonei pelas obras de Jane Austen ou, pelo menos, quando foi que li o primeiro livro da autora. No entanto, não consegui me lembrar. Parece, na verdade, que ela sempre esteve presente em minha vida e com certeza, ela é uma das grandes culpadas por eu ter me tornado tão romântica.

Falar de Jane Austen para quem gosta de romances é até um pouco desnecessário, pois para quem ama as obras clássicas deste gênero literário, Jane Austen é a rainha de nossas bibliotecas particulares. Porém, para aqueles que nunca leram nada dela, escrevo este artigo com muito carinho para lhes apresentar ao mundo de Jane Austen e tentar persuadi-los a se permitirem encantar por seus livros e todos os filmes e minisséries baseadas em suas obras.

Jane Austen nasceu em 1775, em Hampshire, Inglaterra, em uma família pertencente à burguesia agrária e sua situação e ambiente serviram de contexto para todas as suas obras, cujo tema sempre girava em torno do casamento da protagonista. 

Jane era filha do reverendo George Austen, e de sua esposa Cassandra. A família era formada por oito irmãos, sendo Jane e sua irmã mais velha, Cassandra, as únicas mulheres. Cassandra e Jane eram confidentes e muito próximas. A relação de amizade das duas irmãs foi transmitida nos personagens de duas irmãs em “Orgulho e Preconceito”.

Entre 1785 e 1786, Jane e Cassandra foram alunas de um internato, lugar que pode ter inspirado Jane para descrever o internato da Sra. Goddard, que aparece no romance Emma. O reverendo e tutor Austen tinha uma ampla  biblioteca e, segundo Jane Austen conta em suas cartas, tanto ela quanto sua família eram "ávidos leitores de romances e não se envergonhavam disso". Todas as protagonistas de Jane Austen tinham o apurado gosto pela leitura.

Entre 1795 e 1799 começou a redigir as primeiras versões dos romances que se publicariam sob os nomes Razão e Sensibilidade”, Orgulho e Preconceito” e “Abadia de Northanger" (que antes se intitulavamElinor e Marianne, “Primeiras Impressões” e Susan, respectivamente). Em 1797, seu pai quis publicar Orgulho e Preconceito, mas o editor recusou.

Em 1800, seu pai decidiu mudar-se para Bath, cidade que Jane não apreciava muito. As memórias desta época são consideradas como a inspiração para a obra “Persuasão”, onde a protagonista também se muda para Bath a contragosto.

Em 1810 ou 1811, “Razão e Sensibilidade” foi publicado de forma anônima, com o pseudônimo: "Por uma Dama".  Animada pelo êxito da publicação, a autora, de forma anônima novamente, publicou “Orgulho e Preconceito” em 1813. A identidade da autora começou a difundir-se, graças à popularidade desta última obra e à indiscrição da família. Em 1814, surgiu Mansfield Park, obra da qual se venderam todos os exemplares em seis meses. Em 1815, foi publicada Emma”.

Austen começou “Persuasão”  em 1815 e um ano depois começou a se sentir mal. No início de 1817 começou uma nova obra, porém teve que abandoná-la por seu estado de saúde. Jane Austen faleceu em 18 de julho de 1817. Seu último romance “Persuasão”  e o já escrito “Abadia de Northanger" foram preparados para publicação pelo irmão Henry Austen e foram publicados ainda em 1817.

Além do gosto pela leitura, um ponto comum entre todas as suas protagonistas era que elas não eram muito interessadas em serem prendadas ou terem muitos talentos.  Em “Orgulho e Preconceito”, surge um debate entre os personagens sobre o que comumente era o protótipo de dama ideal. Para a aristocracia, um bom modelo era o de uma mulher culta, que sabia falar idiomas modernos, que entendia de música, de estilo, de vários temas, que soubesse tocar um instrumento, desenhar e que tivesse certo carisma e expressão na maneira de andar e falar. Frente a isso, Elizabeth (a protagonista) põe em dúvida se existe uma mulher capaz de ter todas essas qualidades ao mesmo tempo, ao que responde a Mr. Darcy: “Não duvido que conheçais apenas uma dezena; duvido que conheçais alguma”.

Jane Austen e sua irmã Cassandra nunca se casaram. O grande amor da vida de Jane teria sido o irlandês Thomas Lefroy, mas que este amor teria sido impossível devido a razões econômicas, pois era esperado para o jovem Lefroy um casamento mais vantajoso. 

Eu considero que Jane Austen conferiu a todas as suas protagonistas o final feliz no amor que ela talvez não conseguiu ter e por isso seus livros são tão encantadores. São repletos de inocência, amor e esperança de um final feliz. Além disso, sempre encontramos  uma perspicácia, inteligência e ironia nas protagonistas que são divertidíssimas, característica das obras desta autora.

E, como se não bastasse todos os seus maravilhosos livros, existem muitos filmes e minisséries (produzidas especialmente pela BBC) que nos trazem em imagens todas essas encantadoras histórias!



Produção da BBC de "Persuasão", 2007. Há também uma outra versão de 1995. 

A história traz a jovem Anne, que pressionada pela família aristocrática e falida, rompe com seu noivo, que não tem posição social, nem dinheiro, para anos mais tarde o reencontrar rico, bem sucedido e rodeado de pretendentes.




"Orgulho e Preconceito", de 2005. Há várias outras versões, com destaque para a de 1995 da BBC.

O romance conta a história de cinco irmãs que são criadas para terem bons casamentos, apesar da pouca condição financeira. A segunda filha, Elizabeth é a idealista que quer se casar por amor, quando ela conhece o bonito e orgulhoso Darcy, por quem acabará por se apaixonar, mesmo contra sua vontade.




"Emma" da BBC, de 2009. Há uma outra linda versão com Gwyneth Paltrow de 1996.

Nessa história, a protagonista é Emma, uma jovem bonita e inteligente que vive feliz com o pai viúvo. Quando sua governanta se casa ela fica entediada e resolve bancar o cupido para as pessoas que a cercam, mas apesar de parecer ser uma autoridade no assunto, Emma nunca se apaixonou e nunca imaginará quem é seu grande amor.



"Razão e Sensibilidade" de 1995. Há outras versão recente da BBC, de 2008.

Nesta história, após a morte do pai, duas irmãs são deixadas em má situação financeira. Uma é muito racional e a outra é muito sensível. Obrigadas a mudar-se para o campo, acabarão por encontrar o amor, cada uma a seu modo.



"Mansfield Park" ou "Palácio das Ilusões", de 1999. Há uma recente versão da BBC, de 2007.

Neste romance, Fanny Price vai morar de favor na casa do tio rico aos 12 anos de idade, onde é criada. Inteligente e estudiosa, torna-se também uma bela mulher, chamando a atenção de seu novo e rico vizinho. Os tios estimulam a união, mas para desgosto deles, ela não está interessada.



"Amor e Inocência" de 2007.

Traz a história de Jane Austen antes da fama, que vive um romance com um jovem advogado irlandês, que acabaria por inspirar seus livros. 

 
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12/07/2013

"Perdição por amor", um escândalo para a época.

  Autor: Paulo Roberto Cannizzaro, Em Literatura, Cinema
  


Cartaz de "Perdição por amor" ("Carrie"), de 1952.

O que é notável neste filme é ver mais um grande desempenho do excepcional Laurence Olivier. Ele, de fato, é um dos monstros da interpretação cinematográfica. Impressiona sua atuação, junto de Jennifer Jones, inesquecível no filme “Suplício de uma Saudade”, embora especialmente neste filme sua atuação nem chegue perto do grande Olivier.

É uma história impressionantemente trágica. Laurence Olivier representa um típico homem de família, bem posicionado socialmente, com uma situação financeira  estável, uma vida tranquila com seus filhos e esposa, gerindo um grande restaurante respeitável. Enfim, um executivo regiamente remunerado, gozando de grande confiança e respeitabilidade. Apresenta-se bem vestido, diariamente, no desempenho de suas atividades profissionais.

Na trama do filme, ele vai abrir mão de todo esta situação de aparente “estabilidade”, para ir viver isoladamente uma história de enorme paixão, com uma garota que vem do interior para Chicago buscando melhorar de vida e encontrar um emprego. Até este encontro, ela já havia se tornando amante de outro homem nesta cidade grande, que abrigou a desempregada em seu apartamento.



Lawrence Olivier e Jennifer Jones em cena, na escandalosa história de amor.



Lawrence Olivier e Jennifer Jones, protagonistas da trama.


O filme é baseado no romance de Theodore Dreiser. Ele  foi um escritor e ativista político norte-americano. Naquela época, os editores classificavam Dreiser como um autor “imoral demais”. O filme, de certa forma, conta uma história escandalosa, para os padrões de um homem de família naquela década, que larga tudo e vai morar com uma interiorana, sem visibilidade social e sem se casar oficialmente. Uma afronta total.



Primeira edição  do livro, em 1900, já considerada uma obra controversa. Os editores fizeram uma capa que não despertasse muita atenção.


A direção de William Wyler também é impecável. O mestre Wyler talvez seja considerado um dos maiores mestres e condutores dos grandes atores de Hollywood. Mesmo assim, o filme é um dos seus raros fracassos de bilheteria, talvez exatamente por narrar uma história tão incomum e, claramente, pouco comercial.

Na verdade, Laurence foi amigo de Wyler. Eles já haviam trabalhado juntos em o “Morro dos Ventos Uivantes”, e a impressão que se tem, assistindo a trama, é que ninguém faria melhor o papel, do que Olivier neste filme. Muitos dizem que foi Wyler que ensinou a Olivier a ser o grande ator que acabou se transformando ao longo de sua vida. No entanto, com a textura que Laurence Olivier dá ao personagem, deixa a impressão que ele ultrapassa mesmo o que tinha aprendido com Wyler. Ele está soberbo no papel.

Jennifer Jones, dizem os especialistas, foi escolhida porque era esposa do poderoso do produtor David Selznick. Acabou fazendo o papel de Carrie, embora a indicação original para o papel deveria ser dada a Elizabeth Taylor, que foi preterida por ser muito nova e acabou perdendo o papel.

O filme foi duramente rechaçado pela ala conversadora da sociedade americana e talvez explique muito deste fracasso de público. O livro já havia sido um verdadeiro escândalo, na ocasião. Até a capa do livro é sombria, sem nenhum adorno. A crítica sobre este filme sempre foi muito pouco generosa. Se você ler mais sobre o filme, seguramente não vai encontrar ele na lista dos grandes filmes, tendo acumulado sobre si certa intolerância pela sua falta de sucesso. Alguns ainda são severos em criticar o desempenho de Jennifer Jones, afirmando que sua atuação é exageradamente sombria, o que teria deixado o filme ainda mais pesado.  

Outros não perdoam, ainda, o final do filme, dizendo que deveria ter mais impacto. É verdade que ele passa uma sensação de um corte rápido e mal concluído, abruptamente, e sem maior fechamento dos personagens.

Inegavelmente, o tom do filme é bem trágico, sobretudo quando retrata um Laurence Olivier maltrapilho, pedinte, muito distante do personagem original. Ainda é trágico o comportamento da ex-esposa, que com sua influência social é capaz de boicotar toda a sequência da vida do personagem de Olivier.

Críticas à parte, eu recomendo este filme. É um filme muito bom e que já vale a pena, somente para ver o grande Sir Olivier (poucos receberam este título no cinema e na Inglaterra).

 
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01/07/2013

"Flor do Deserto" e o forte relato da vida de Waris Dirie

  Autor: Paulo Roberto Cannizzaro, Em Literatura, Cinema
  


Waris Dirie atuando como modelo


Flor do Deserto, filme baseado no livro bestseller de Waris Dirie de mesmo nome.


Na língua nativa da modelo da Somália Waris Dirie, que ficou em seguida conhecida no mundo todo como modelo, o seu próprio nome significa flor de deserto, que é também o nome deste filme. 

O filme retrata a história verídica da supermodelo Waris Dirie. Nascida na Somália em 1965, no seio de uma tribo em péssimas condições de vida, foi aos 13 anos de idade vendida pela família para casar com um homem de 60 anos. Alegava sua mãe, mesmo sob a indignação da garota, que o tal homem havia oferecido um bom dinheiro por ela. Inconformada com este destino, ela foge da tribo e dos pais, mesmo deixando suas memórias e tradições. Essa corajosa mulher atravessa  inacreditavelmente todo o deserto somali durante vários dias, submetida a todos os sacrifícios de uma viagem desesperada, conseguindo chegar a cidade de Mogadíscio, onde sua avó a acolhe.

Ela, então, é enviada para Londres. Já na Inglaterra, foi faxineira na Embaixada da Somália. Quando quase é deportada com passaporte vencido, casa com um zelador inglês para ter visto de permanência. A linda modelo foi descoberta pelo famoso fotógrafo Terry Donaldson, enquanto trabalhava em uma lanchonete, que começa a produzi-la junto às agências de modelos. A partir daí, sua vida muda radicalmente: ela se transforma numa modelo internacional, mudando totalmente a sua condição de vida pessoal. No auge de sua carreira, ela revela ao mundo que fora vítima de excisão feminina aos três anos de idade, iniciando, então, uma luta contra esta tradição, tornando-se embaixadora da ONU. 



Cena do filme "Flor do Deserto", 2009.



Livro que deu origem ao filme

O filme é uma autobiografia, que em 1998, se tornou um bestseller em todo o mundo. Waris escreveu alguns livros sobre suas vivências

Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas, a cada 11 segundos, uma criança sofre mutilação genital feminina em alguma parte do mundo. São cerca de 3 milhões de mulheres em um ano. Práticas efetuadas com facas, navalhas, vidros afiados, tesouras, um absurdo. Waris tornou-se, com sua Fundação Waris Dirie, um nome na luta contra FGM (Female Genital Mutilation). 

Olhado apenas como filme, ele tem limitações importantes na construção de alguns personagens, que parecem mal ambientados no enredo e que não agregam nada  importante no contexto da narrativa. No entanto, vale apenas conferir este filme, pelo relato forte daquela que se tornou uma das modelos mais conhecidas do universo da moda e, sobretudo, pelas cenas finais. 

"A mutilação feminina não possui aspectos culturais, religiosos ou de tradição. É um crime que precisa de justiça".
(Waris Dirie)

Para quem quiser conhecer mais sobre o trabalho da Fundação: 

 
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